Foi pela sombra que Ricardo Pais regressou ao Teatro Nacional São João; pela sombra de um povo reflectida num espectáculo multidisciplinar chamado Sombras: A nossa tristeza é uma imensa alegria. O espectáculo está em cena, em estreia absoluta, na cada vez mais renovada sala portuense, de 18 a 28 de Novembro.
Note-se porém, que é irónica a sombra desse povo. Nem poderia deixar de o ser, uma vez que o povo é o português. E, neste contexto, as sombras são tão importantes para a vista, como as entrelinhas para a escrita ou o silêncio para a música, o que, aliás, também está bem latente nesta obra complexa, onde teatro, música, vídeo, dança e – por que não referi-lo para lá da própria música – fado, aparecem tão embrenhados entre si, que tentar separá-los seria retirar todo o sentido estético à obra maior. Para chegar até ela, para além de uma rigorosa selecção/coordenação de autores e textos portugueses de diversos períodos, Ricardo Pais contou com a cumplicidade, entre outros, de nomes tão importantes como Mário Laginha (fora do palco e também em cena) na direcção musical, o italiano Fabio Iaquone nos vídeos ou Paulo Ribeiro nas coreografias.
Sombras, ora coloridas ora verdadeiramente sombrias, tornam-se visíveis à luz de palavras de autores referentes da literatura portuguesa como Fernando Pessoa, Almeida Garrett ou Pedro Homem de Mello; audíveis através do fado, ora doce ora amargo como o amor de um monstro que precisa de amigos – que melhor veículo do sentimento disso de ser português? –, e que chega a nós através das vozes de Raquel Tavares e de José Manuel Barreto. A tradição do fado e de clássicos da literateratura nacional fundem-se com a intensidade contemporânea da dança e das projecções de imagens, criando uma obra dinâmica e verdadeiramente viva, onde sentimento e carne constituiem uma dimensão única. Bailarinos, actores, fadistas vão entrando, vão saindo. Presença constante no palco, os músicos, marcam territorialmente a sua importância na cena, equilibram perfeitamente a estética visual do espectáculo.
Em Sombras, a nossa tristeza é de facto uma imensa alegria, outras vezes o oposto. O que não deixará certamente de ser preocupante é que textos de outros tempos continuem a ilustrar tão fielmente a sociedade dos nossos dias – há sempre quem continue à espera de um D. Sebastião, quem ame cegamente como D. Pedro e D. Inês o fizeram, quem tenha um sentido de estado tão cruel e castrador como o de D. Afonso IV...
O espectáculo de Ricardo Pais acaba pois por ser um convite a uma reflexão cada vez mais necessária à nossa sociedade, que vai insistindo em ser uma sombra de si própria ou já a própria sombra de outra coisa qualquer. Como o povo que as projecta, estas Sombras são divertidas, vagas, complexas, irónicas, cruas. Certo é, que no final, parecem fazer mais sentido do que a matéria que primeiramente as originou; um povo com saudades do que nunca foi, sem tempo – lamenta-se – para o ser, e «afinal, o tempo fica; a gente é que vai passando».Ficha técnica:
Vídeos: Fabio Iaquone, Luca Attilii / Música original e direcção musical: Mário Laginha / Coreografias: Paulo Ribeiro / Cenografia: Nuno Lacerda Lopes / Figurinos: Bernardo Monteiro / Desenho de luz: Rui Simão / Desenho de som: Francisco Leal / Voz e elocução: João Henriques / Consultor musical (fados): Diogo Clemente / Guião e encenação: Ricardo Pais / Assistência de encenação: Manuel Tur
Interpretação: José Manuel Barreto, Raquel Tavares (fadistas) / Emília Silvestre, Pedro Almendra, Pedro Frias (actores) / Carla Ribeiro, Francisco Rousseau, Mário Franco (bailarinos) / Mário Laginha (piano), Carlos Piçarra Alves (clarinete), Mário Franco (contrabaixo), Miguel Amaral (guitarra portuguesa), Paulo Faria de Carvalho/Diogo Clemente (viola), Albano Jerónimo, António Durães, João Reis e Teresa Madruga (participação especial em vídeo)
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