Confrontado com a pergunta «Tem o complexo de deus?», colocada por Miguel Matos em entrevista publicada na edição de Verão da revista Umbigo, a resposta de Pedro Cabrita Reis não poderia ter ido mais de encontro àquilo que deve ser a atitude do artista – no fundo, alguém que re-estabelece uma relação privilegiada com o mundo que o/nos rodeia, e que pelo menos até esse momento é imperceptível para os demais –: «Não. Tenho ambições maiores do que isso».
Se partirmos do pressuposto bíblico de que o mundo, tal como o próprio homem, são criações de Deus, mas que a primeira vez que um homem e uma mulher decidiram agir fora da formatação divina – fruto do conhecimento adquirido aquando da ingestão do fruto proibido – o resultado foi o pecado original, é legítimo, parece-me – seguindo a mesma lógica –, assumir que todos os que pensam e/ou agem artisticamente (seja lá o que isso for) são Evas e Adões. Tal como os “primeiros” inventaram o pecado, extravasando os limites que Deus lhes havia colocado, também o artista inventa sempre que vê mais além das paredes invisíveis que separam a sociedade do mundo. Considere-se Adão o artista, Eva é o outro fundamental para todo o criador – ou será re-criador? –, e vice-versa. A maçã é o mundo, a natureza na qual somos participantes e que apenas é possível percepcionar em toda a sua grandeza pulando limites, saindo do rebanho, escolhendo a floresta onde existe um lobo mau para chegarmos a casa da avozinha!
Num contexto social ocidental contemporâneo, o poder já não se centra num chefe de estado ou na instância mais alta de uma fé dominante. Isso leva a que se formem vazios na sociedade, habituada, se não conformada, a seguir as morais vigentes, fugindo da necessidade (já nem lhe vamos chamar prazer) de raciocinar, ou até, tão simplesmente de sonhar. Hoje, quem mais manda é quem melhor manipula a comunicação, que numa esmagadora maioria das vezes se limita a dar erva aos cordeirinhos conformados para lhes encher a barriguinha. O artista, o tal que sai do rebanho, que não tem medo do que a televisão lhe contou sobre um lobo que é mau, é pois alguém com espírito de descoberta, um confrontador que funde sonhos e raciocínios, e que é capaz de os expressar, na esperança de que outros venham a fazer as suas próprias fusões a partir do que ele havia atestado primeiramente.
A atitude artística poderá então ser ver tudo onde o conformado vê nada. E tudo e nada é o que nós mais temos, quer no mundo natural quer no da humanidade. Porque não ter a coragem de fantasiar como quando éramos crianças, embora sem a mesma inocência? Da mesma forma que uma árvore é vida, lenha, papel, sombra, frutos… Um guiador de bicicleta pode ser muito mais do que um guiador de bicicleta, ou um secador de garrafas mais do que um secador de garrafas. Já o foram às mãos dos grandes, e uma maçã já mudou o mundo - e não foi a de Eva e de Adão; nem sequer a de Newton!
Se partirmos do pressuposto bíblico de que o mundo, tal como o próprio homem, são criações de Deus, mas que a primeira vez que um homem e uma mulher decidiram agir fora da formatação divina – fruto do conhecimento adquirido aquando da ingestão do fruto proibido – o resultado foi o pecado original, é legítimo, parece-me – seguindo a mesma lógica –, assumir que todos os que pensam e/ou agem artisticamente (seja lá o que isso for) são Evas e Adões. Tal como os “primeiros” inventaram o pecado, extravasando os limites que Deus lhes havia colocado, também o artista inventa sempre que vê mais além das paredes invisíveis que separam a sociedade do mundo. Considere-se Adão o artista, Eva é o outro fundamental para todo o criador – ou será re-criador? –, e vice-versa. A maçã é o mundo, a natureza na qual somos participantes e que apenas é possível percepcionar em toda a sua grandeza pulando limites, saindo do rebanho, escolhendo a floresta onde existe um lobo mau para chegarmos a casa da avozinha!
Num contexto social ocidental contemporâneo, o poder já não se centra num chefe de estado ou na instância mais alta de uma fé dominante. Isso leva a que se formem vazios na sociedade, habituada, se não conformada, a seguir as morais vigentes, fugindo da necessidade (já nem lhe vamos chamar prazer) de raciocinar, ou até, tão simplesmente de sonhar. Hoje, quem mais manda é quem melhor manipula a comunicação, que numa esmagadora maioria das vezes se limita a dar erva aos cordeirinhos conformados para lhes encher a barriguinha. O artista, o tal que sai do rebanho, que não tem medo do que a televisão lhe contou sobre um lobo que é mau, é pois alguém com espírito de descoberta, um confrontador que funde sonhos e raciocínios, e que é capaz de os expressar, na esperança de que outros venham a fazer as suas próprias fusões a partir do que ele havia atestado primeiramente.
A atitude artística poderá então ser ver tudo onde o conformado vê nada. E tudo e nada é o que nós mais temos, quer no mundo natural quer no da humanidade. Porque não ter a coragem de fantasiar como quando éramos crianças, embora sem a mesma inocência? Da mesma forma que uma árvore é vida, lenha, papel, sombra, frutos… Um guiador de bicicleta pode ser muito mais do que um guiador de bicicleta, ou um secador de garrafas mais do que um secador de garrafas. Já o foram às mãos dos grandes, e uma maçã já mudou o mundo - e não foi a de Eva e de Adão; nem sequer a de Newton!