quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sombras: A nossa tristeza é uma imensa alegria

Foi pela sombra que Ricardo Pais regressou ao Teatro Nacional São João; pela sombra de um povo reflectida num espectáculo multidisciplinar chamado Sombras: A nossa tristeza é uma imensa alegria. O espectáculo está em cena, em estreia absoluta, na cada vez mais renovada sala portuense, de 18 a 28 de Novembro.
Note-se porém, que é irónica a sombra desse povo. Nem poderia deixar de o ser, uma vez que o povo é o português. E, neste contexto, as sombras são tão importantes para a vista, como as entrelinhas para a escrita ou o silêncio para a música, o que, aliás, também está bem latente nesta obra complexa, onde teatro, música, vídeo, dança e – por que não referi-lo para lá da própria música – fado, aparecem tão embrenhados entre si, que tentar separá-los seria retirar todo o sentido estético à obra maior. Para chegar até ela, para além de uma rigorosa selecção/coordenação de autores e textos portugueses de diversos períodos, Ricardo Pais contou com a cumplicidade, entre outros, de nomes tão importantes como Mário Laginha (fora do palco e também em cena) na direcção musical, o italiano Fabio Iaquone nos vídeos ou Paulo Ribeiro nas coreografias.
Sombras, ora coloridas ora verdadeiramente sombrias, tornam-se visíveis à luz de palavras de autores referentes da literatura portuguesa como Fernando Pessoa, Almeida Garrett ou Pedro Homem de Mello; audíveis através do fado, ora doce ora amargo como o amor de um monstro que precisa de amigos – que melhor veículo do sentimento disso de ser português? –, e que chega a nós através das vozes de Raquel Tavares e de José Manuel Barreto. A tradição do fado e de clássicos da literateratura nacional fundem-se com a intensidade contemporânea da dança e das projecções de imagens, criando uma obra dinâmica e verdadeiramente viva, onde sentimento e carne constituiem uma dimensão única. Bailarinos, actores, fadistas vão entrando, vão saindo. Presença constante no palco, os músicos, marcam territorialmente a sua importância na cena, equilibram perfeitamente a estética visual do espectáculo.
Em Sombras, a nossa tristeza é de facto uma imensa alegria, outras vezes o oposto. O que não deixará certamente de ser preocupante é que textos de outros tempos continuem a ilustrar tão fielmente a sociedade dos nossos dias – há sempre quem continue à espera de um D. Sebastião, quem ame cegamente como D. Pedro e D. Inês o fizeram, quem tenha um sentido de estado tão cruel e castrador como o de D. Afonso IV...  
O espectáculo de Ricardo Pais acaba pois por ser um convite a uma reflexão cada vez mais necessária à nossa sociedade, que vai insistindo em ser uma sombra de si própria ou já a própria sombra de outra coisa qualquer. Como o povo que as projecta, estas Sombras são divertidas, vagas, complexas, irónicas, cruas. Certo é, que no final, parecem fazer mais sentido do que a matéria que primeiramente as originou; um povo com saudades do que nunca foi, sem tempo – lamenta-se – para o ser, e «afinal, o tempo fica; a gente é que vai passando».

Ficha técnica:

Vídeos: Fabio Iaquone, Luca Attilii / Música original e direcção musical: Mário Laginha / Coreografias: Paulo Ribeiro / Cenografia: Nuno Lacerda Lopes / Figurinos: Bernardo Monteiro / Desenho de luz: Rui Simão / Desenho de som: Francisco Leal / Voz e elocução: João Henriques / Consultor musical (fados): Diogo Clemente / Guião e encenação: Ricardo Pais / Assistência de encenação: Manuel Tur

Interpretação: José Manuel Barreto, Raquel Tavares (fadistas) / Emília Silvestre, Pedro Almendra, Pedro Frias (actores) / Carla Ribeiro, Francisco Rousseau, Mário Franco (bailarinos) / Mário Laginha (piano), Carlos Piçarra Alves (clarinete), Mário Franco (contrabaixo), Miguel Amaral (guitarra portuguesa), Paulo Faria de Carvalho/Diogo Clemente (viola), Albano Jerónimo, António Durães, João Reis e Teresa Madruga (participação especial em vídeo)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A ambição

Confrontado com a pergunta «Tem o complexo de deus?», colocada por Miguel Matos em entrevista publicada na edição de Verão da revista Umbigo, a resposta de Pedro Cabrita Reis não poderia ter ido mais de encontro àquilo que deve ser a atitude do artista – no fundo, alguém que re-estabelece uma relação privilegiada com o mundo que o/nos rodeia, e que pelo menos até esse momento é imperceptível para os demais –: «Não. Tenho ambições  maiores do que isso».
Se partirmos do pressuposto bíblico de que o mundo, tal como o próprio homem, são criações de Deus, mas que a primeira vez que um homem e uma mulher decidiram agir fora da formatação divina – fruto do conhecimento adquirido aquando da ingestão do fruto proibido – o resultado foi o pecado original, é legítimo, parece-me – seguindo a mesma lógica –, assumir que todos os que pensam e/ou agem artisticamente (seja lá o que isso for) são Evas e Adões. Tal como os “primeiros” inventaram o pecado, extravasando os limites que Deus lhes havia colocado, também o artista inventa sempre que vê mais além das paredes invisíveis que separam a sociedade do mundo. Considere-se Adão o artista, Eva é o outro fundamental para todo o criador – ou será re-criador? –, e vice-versa. A maçã é o mundo, a natureza na qual somos participantes e que apenas é possível percepcionar em toda a sua grandeza pulando limites, saindo do rebanho, escolhendo a floresta onde existe um lobo mau para chegarmos a casa da avozinha!
 Num contexto social ocidental contemporâneo, o poder já não se centra num chefe de estado ou na instância mais alta de uma fé dominante. Isso leva a que se formem vazios na sociedade, habituada, se não conformada, a seguir as morais vigentes, fugindo da necessidade (já nem lhe vamos chamar prazer) de raciocinar, ou até, tão simplesmente de sonhar. Hoje, quem mais manda é quem melhor manipula a comunicação, que numa esmagadora maioria das vezes se limita a dar erva aos cordeirinhos conformados para lhes encher a barriguinha. O artista, o tal que sai do rebanho, que não tem medo do que a televisão lhe contou sobre um lobo que é mau, é pois alguém com espírito de descoberta, um confrontador que funde sonhos e raciocínios, e que é capaz de os expressar, na esperança de que outros venham a fazer as suas próprias fusões a partir do que ele havia atestado primeiramente. 
A atitude artística poderá então ser ver tudo onde o conformado vê nada. E tudo e nada é o que nós mais temos, quer no mundo natural quer no da humanidade. Porque não ter a coragem de fantasiar como quando éramos crianças, embora sem a mesma inocência? Da mesma forma que uma árvore é vida, lenha, papel, sombra, frutos… Um guiador de bicicleta pode ser muito mais do que um guiador de bicicleta, ou um secador de garrafas mais do que um secador de garrafas. Já o foram às mãos dos grandes, e uma maçã já mudou o mundo - e não foi a de Eva e de Adão; nem sequer a de Newton!

domingo, 10 de outubro de 2010

Art(i)Manha? Como se amanha...

O nome deste blog surge da distorção positiva da palavra "artimanha", através da qual se pretende chegar a três outras palavras, de infinitos sentidos. Assim, fazendo a divisão "art-i-manha": "Art" refere-se a arte; "(i)", como já acontece com o jornal, refere-se a informação; "Manha" surge como uma qualidade fundamental para cortar (sem se cortar com) as curvas sinuosas da contemporaneidade sem, contudo, se ser manhoso; precisamente para não se tornar manhoso.
Dito isto, o blog Art(i)manha apresenta-se como um espaço/tempo de partilha de actualidade, com especial afeição pelos temas artísticos e culturais. Da parte do seu autor, pode-se esperar a publicação de ensaios informais, não pretenciosos, onde o principal dínamo será a sua percepção própria das coisas. Pode-se esperar sobretudo a espera pela colaboração/partilha de todos quantos o queiram fazer.
Sem qualquer artimanha, Art(i)Manha dá-lhes as boas vindas. Olá!